Foi perturbador ouvir alguns discursos por ocasião da cerimónia que assinalou a entrada em vigor do Tratado de Lisboa feita na Torre de Belém a 1 de Dezembro de 2009. Coube ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, dar as boas vindas a todas as entidades e convidados presentes dizendo-lhes que:
Daqui partiram as naus que uniram continentes. Daqui partiu a diáspora da emigração portuguesa que abriu fronteiras. Daqui partiu uma língua que hoje põe em diálogo mais de 200 milhões de pessoas.
O Presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, alinhou:
Deste local partiram algumas das grandes expedições marítimas portuguesas, que levaram a Europa ao mundo e realizaram a primeira globalização da História.
O que os portugueses de então fizeram teve por base uma ambição, tomou a forma de um projecto mobilizador e ficou a dever o seu sucesso à aliança entre a vontade corajosa dos homens e os prodígios da inovação tecnológica.
No entanto, Isabel Costa Leite, professora auxiliar na Universidade Fernando Pessoa, apresentou na Conferência Internacional Ásia/África o seu trabalho “Entre Africa e Europa: Cabo Verde e a sua estrategia de desenvolvimento” onde afirma que:
Durante cinco séculos como colónia portuguesa, o período revolucionário de 1974/1975 encontrou Cabo Verde numa situação de subdesenvolvimento humano, com uma grave crise alimentar, económica e social a que teve de fazer frente nos anos seguintes. A presença, até então, da administração portuguesa não havia introduzido qualquer sistema capaz de promover o desenvolvimento do arquipélago, limitando-se a suportar alguma ajuda alimentar em épocas mais prejudicadas pela seca. Com um total de quase 300.000 habitantes, o quadro nacional encontrava-se marcado por uma economia de subsistência com uma agricultura para consumo interno fraca e dependente das chuvas, o sector das pescas ainda artesanal, uma elevada taxa de analfabetismo de 75%, nas áreas rurais a rondar os 90%, uma taxa de natalidade de 2% por ano e uma taxa de mortalidade de 1,2%, ausência de água potável e condições sanitárias (disponível apenas nos centros urbanos) e dificuldades no acesso aos cuidados médicos por falta de pessoal especializado (médicos e enfermeiros). A taxa de desemprego afectava entre 60% e 75% da população activa o que aumentava o forte desejo da população em procurar novas oportunidades de vida no exterior. No âmbito do sector industrial, um reduzido conjunto de actividades caracterizava este período: pesca para exportação, exploração de salinas, construção naval no Mindelo e o funcionamento do aeroporto internacional do Sal. O sector dos transportes enfrentava sérias dificuldades pela ausência de infra-estruturas rodoviárias e marítimas o que constituía um forte bloqueio ao desenvolvimento da indústria, turismo e comércio (Andrade, 2002, 266-267).
Definitivamente, os discursos não acompanham os factos.
Obviamente, o branqueamento das “Descobertas” continua.
Créditos da foto: CML – Câmara Municipal de Lisboa.
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É bem verdade que toda a moeda tem duas faces…mas será sempre uma moeda!
E quando é que a moeda cairá em pé, permitindo que se vislumbre as suas duas esplendorosas faces?
PS: Superiormente bem observado, caro Zito!
É a nossa curiosidade mórbida ou científica, que os leva a virar a moeda para olhar o “outro lado”… Para ver as duas faces em simultaneo seríam necessárias duas moedas e isso seria batota…A moeda jamais caíu e jamais cairá de pé mas talvez convenha, por vezes, não confundir descobertas com colonização, pois são faces de moedas distintas.
Em completo desacordo pois, indubitavelmente, uma coisa levou à outra. Discorda?
Juro que não percebi !!!
Deve ser por se português , nos excertos aqui publicados em nenhum dos discursos faz referencia que os portugueses com os descobrimentos torceram prosperidade para os países onde passaram !!!
E não está bem explícita, a bradar aos céus e a todo o mundo, a “grandiosidade dos descobrimentos portugueses” quando no caso cabo-verdiano, muito bem apontado no artigo acima citado, foi um completo desastre?
Meu caro Amilcar. Como é evidente ninguém vai fazer um discurso deste género: “Deste local partiram algumas das grandes expedições marítimas portuguesas, (…). Expedições essas onde se cometeram inumeras atrocidades, desde a escravatura à imposição do Cristianismo”.
Porquê essa questão agora do branqueamento? Achas que não existe a noção das coisas terriveis que os Descobrimentos Portugueses originaram?
Acho que o grande valor dos Descobrimentos é indiscutivel!
Badio di fora, aquilo que eu acho é que não podemos nos esquecer ou escamotear as coisas. Aconselho-o vivamente a consultar a página na Wikipedia sobre os Descobrimentos Portugueses. O branqueamento, que saliento, é flagrantemente notado quando se procura pela palavra “escravatura” nesse artigo. Nem sequer lá é mencionada! É esse o estilo que se emprega na apresentação das “Descobertas” nas terras lusas. E que acho que é um branqueamento. Acho que tenho razão nesse ponto.
Os três (re)contaram verdades sem consequências, naturalmente. Tudo muito bonito!
Caro Amilcar,
Tanto o seu artigo como os comentários a ele relacionados parecem-me verdades indiscutíveis menos num ponto.
E esse ponto é justamente a questão do “branqueamento”. A paralvra refere-se essencialmente a algo ilícito com o objectivo de se tornar lícito.
Ora os Descobrimentos Portugueses foram, de facto, um grande feito, mas também um grande desastre, quando analisado numa perspectiva cultural e humana.
Não me parece que nenhum português se sinta orgulhoso ou tenha esquecido das porcarias que os Descobrimentos trouxeram ao mundo. Quanto a isso, os movimentos de independência das colónias, hoje países soberanos, provam perfeitamente esse ponto de vista.
Por outro lado, quando um pai olha um filho, orgulha-se dos seus lados positivos, não esquece (mas não refere) os lados negativos.
Parece-me que é legítimo o orgulho que, nós portugueses sentimos na epopeia dos descobrimentos, assim como é também é ser português reconhecer os erros cometidos e que ainda cometemos. Uma das actuais correntes dirigidas aos portugueses é mesmo: “Já chega de falarmos mal do que é nosso”.
Quanto aos nossos dirigentes: honestamente não me parece que andem com supercomputadores a localizar tudo quanto é dito de mal (em relação aos descobrimentos) e a apagar esses registos, ou que andem a silenciar aqueles que falam mal dos descobrimentos (ao estilo da CIA ou do KGB).
Os tempos da Censura terminaram em Portugal; já passámos por isso. Não há branqueamento, somente orgulho por um lado e vergonha por outro. Não vejo o Amilcar a falar daquilo que tem vergonha… Será que isso é branqueamento?
Meu caro,
Varrer o lixo para debaixo do tapete também é “branqueamento”. Em resposta a um dos comentários feitos a este post dei o exemplo do artigo na Wikipedia sobre os “descobrimentos” e até podia também exemplificar com os programas escolares ou programas de TV que versam o assunto.
Sabendo nós que uma coisa levou, directamente, à outra, porque suavizar, e por vezes até escamotear, as suas consequências?
Para finalizar, acho que uma leitura atenta aos mais de 500 posts publicado aqui no blog, permitir-te-á conhecer as coisas que me envergonham. Mas também permitir-te-á conhecer as coisas que me orgulham. Tudo num registo equilibrado e equitativo. Sem desculpar nada. Sem escamotear nada. Enfim, tudo se resume a uma questão de atitude.
Perfeitamente de acordo! O Sr. Amilcar tem, no seu blog, um registo equilibrado e equitativo. Seria maravilhoso se os meios de imprensa, portugueses ou não, fossem igualmente íntegros.
Peço a minhas mais sinceras desculpas por me ter exprimido de uma forma tão pouco clara.
Na realidade, quando o mencionei, referia-me àquelas situações em que, tal como Cavaco Silva, temos de nos referir aos aspectos positivos de algo.
Saliento uma leitura contextualizada dos discursos e recordo que Cavaco Silva falava das vantagens do mundo global como medida de exemplo para o futuro europeu. Se eu tivesse de falar do mesmo, e da mesma forma sucinta, não podería de modo nenhum colocar nesse texto uma ressalva aos aspectos negativos dos Descobrimentos.
Cavaco Silva serve-se de um aspecto positivo dos Descobrimentos pedindo-o que esse aspecto concreto sirva de exemplo para o futuro europeu.
Concordo com o Sr. Amilcar nos seus pontos de vista sobre as vantagens e inconvenientes dos descobrimentos, mas critico-o por pegar nesses parágrafos, onde visivilmente é impossível mostrar as vergonhas dos Descobrimentos, e referir-se a eles como exemplos de encobrimento, como se Portugal tivesse como finalidade alterar a noção histórica de “Descobrimentos Portugueses”. O título deste post revela esse mesmo intuito!
Já agora, a escolha do trabalho da Dra. Isabel Costa Leite talvez não tenha sido a melhor para provar o seu ponto de vista!
Naqueles anos pós ditaturiais não eram só as colónias que estavam mal… Convém comparar os dados dos habitantes de Cabo Verde apresentados pela da Dra. Isabel com os dados de Portugal. A situação de subdesenvolvimento e analfabetismo em Portugal não era melhor…
Lembro ainda que, apesar de tudo (e digo mesmo tudo, estou consciente da quilo que a escravatura dos descobrimentos trouxe ao mundo), algumas cidades das ex-colónias apresentavam um grau de desenvolvimento notável, melhor que Lisboa.
Já agora, é uma pena que as guerras civis (influenciadas ou não por potências estrangeiras, a verdade é que foram povos autoctones a guerrear entre si) tenham destruído muita da beleza que essas cidades tinham…
Em completo desacordo, meu caro. Senão, vejamos:
O estudo é um excelente retrato.
Portugal, em 1970, tinha 26% mas de analfabetos enquanto Cabo Verde tinha essa percentagem mas de alfabetizados.
O antigo Ministro das Finanças de Portugal, entre 1976 e 1978, Medina Carreira, prova que a economia lusa até era bem melhor do que nos dias de hoje.
Uma curiosidade: onde andavam e como andavam os nativos, nesse panorama de beleza que o Pedro viu, e bem, em Lourenço Marques e Luanda?
Mas se em vez de comparar as estatísticas de Cabo Verde com Portugal globalmente, talvez fosse mais correcto comparar com os distritos de Portugal nesse período e aí talvez tenha algumas surpresas…como sabe, Portugal no período fascista era extremamente centralista.
Já tentei encontrar na net e ainda não encontrei, mas gostaria de ver uma estatística por exemplo de “Índice de desenvolvimento humano” comparando Açores, Madeira e Cabo Verde antes de 1974, se calhar a diferença não será assim tão grande.
Nem mais… A economia portuguesa não era bem melhor, como diz Medina Carreira, uma vez que se baseia apenas em economia centralista.
“Até à morte de Salazar (1970), o PIB de Portugal teve um crescimento anual de 5.66%.
Mas, mesmo com este grande crescimento económico, a economia portuguesa, continuando a ser predominantemente rural e a ser altamente supervisionada pelo regime, continuava a ser atrasada em relação às grandes economias da Europa, embora menos do que durante a 1ª República. No fim da década de 60, Portugal era um dos países com um rendimento per capita mais baixo da Europa, significando que possuía uma mão-de-obra barata e que muita gente vivia da agricultura de subsistência, que não é geradora de rendimentos” (Wikipédia).
Lembro que Portugal fez capital nestes anos, mas com o esforço tanto dos cidadãos portugueses como dos cidadãos das colónias. Lembro ainda que esse capital serviu, sobretudo para colmatar a enormíssima divida externa portuguesa que no limiar da 1ª República ameaçava colocar Portugal na banca-rota.
Como dizia o meu avô: “Nós éramos tão pobres que uma sardinha dava para 5 pessoas.”
Com certeza que o Amilcar, vivendo em Portugal todos estes anos, já ouviu muitas destas histórias.
Quando ao desenvolvimento de Lourenço Marques ou Luanda, facilmente encontra fotografias de como eram as cidades quando foram “abandonadas” (à força ou não) pelos portugueses e de como eram na década de 90. O esforço de desenvolvimento urbano português foi completamente aniquilado! Para mim, mais grave ainda é verificar que Portugal, na cauda da europa e a pedir aos portugueses que façam sacrificios económicos, continue a enviar apoios aos milhres para os PALOP.