O recente cebolório entre uma publicação e um deputado dá o mote a um debate com resultado previsível. Não. Cabo Verde não tem doutores a mais. Aliás, tem um profundo défice de doutores, pois somente 3.9% dos homens e 2.4% das mulheres, em idade ativa, possuem um curso médio ou superior.
Realmente, os recursos humanos são a riqueza das nações e a educação dá o contributo necessário, em conjunto com outras políticas, para o êxito dos esforços nacionais para aumentar a produtividade, a competitividade e o crescimento económico.
O reforço no investimento na educação, claramente, põe competências relevantes no mercado de trabalho, melhora a capacidade de avaliar as informações existentes, é gerador de novos conhecimentos através da investigação e reforça os setores produtivos da economia.
Certamente, temos demasiados organismos estatais e empresas públicas, fracos e ineficientes, geridos por comissários políticos, que são um fardo para as contas nacionais e que ressentem com a falta de doutores que pensem a sua viabilização.
Obviamente, faltam doutores.
Este post vem no âmbito do tema escolhido para o BlogJoint. Leia outras abordagens sobre o tema nos outros blogs: Bianda, Blog di Nhu Naxu, Café Margoso, Emílio Rodrigues, Geração 20 J. 73, Ku Frontalidade, Nos Blogue, O Jornal da Hiena, Passageiro em Trânsito, Pedra Bika, Teatrakacia, Tempo de Lobos.
Créditos da foto: tkamenick. Usada sob licença Creative Commons 3.0.
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Não é preciso ir muito, é só ver que a UNICV tem 53 % dos docentes licenciados, o resto está tudo dito, mais nada.
Essa estatística aplicar-se-ia melhor num país "mais velho" ( idade activa 15 a 59 anos + ou -). Num país jovem, recém independente (média de 23 anos), haverá tempo sufciciente falar em défice de formados a nível de estatística.
Quanto ao trabalho propriamente dito, as pessoas já estão tão habituadas ao "rei vai nu", que quando alguém apresenta um trabalho , transforma-se automaticamente numa aberração, uma falha do sistema. Cada um deve fazer o seu trabalho da melhor forma que pode,mesmo quando parece que o barco vai contra a maré. Cada pontinha de pessoa faz História. O título licenciatura diz tudo, licença para exercer uma determinada profissão com conhecimento de causa. E há já um número considerável licenciados em CV!! Força para todos aqueles que investiram nos seus cursos, conquistem os lugares que são vossos por direito!!!
OOps ,rectificando o comentário anterior. Correcção: Essa estatística aplicar-se-ia melhor num país "mais velho" (sabendo que em CV a idade activa é dos 15 aos 59 anos + ou -).
A questão é pertinente, mas é como dizes Amílcar, Cabo Verde não tem doutores a mais, o problema está no facto do número de licenciados crescer a um ritmo bastante mais acelerado que o das entidades empregadoras! E continuamos a incorrer nos mesmos erros de planeamento (ou falta dele) que reconhecemos nos demais sectores (turismo, indústria, etc): são universidades a mais para um país com a nossa dimensão, 'doutores e engenheiros' formados com desenfreio para nos escondermos atrás da maquilhagem marketizada das estatísticas, e pouco brio por parte de quem aprende…São doutores a menos e pseudo-doutores a mais…
Daqui se vê como a estatística pode estar tão desafazada da realidade real…
Cabo Verde não possui doutores a mais, mais sim inteligentes a menos. Pessoal mergulhemos no fundo da questão. Isto é uma falácia. É só ver o IDH do pais. Este tema dà pano para mangas.
Amílcar, não quero ferir susceptibilidades, apenas dar-te a minha opinião muito pessoal sobre este tema dos "dotôres".
Por um lado, estatisticamente, claro que CV não tem doutores a mais, terá até um défice como apontas. E doutores nunca são demais, se entendermos que as Universidades são também veículos de cultura. Quem não quer ter cidadãos mais cultos?
Por outro lado, pergunto-me se os doutores que vão surgindo/regressando serão realmente aqueles de que o país necessita.
Acho que há doutores a mais nas áreas das ciências sociais e a menos nas áreas técnicas/científicas. Chama-lhe deformação profissional (sou engenheiro), mas não vejo o que é que CV ganha em ter mais advogados que engenheiros, quando há tanto ainda por fazer pelas infra-estruturas básicas do país (estradas, ligações marítimas, electricidade, águas, saneamento).
Nesse sentido, acho que há "dotôres" a mais.
Gostava de perceber se há um critério na atribuição de bolsas para os estudantes cabo-verdianos que saem para estudar. Um critério relacionado com a área de estudos: quotas para determinados cursos, apostas estratégicas nas áreas prioritárias (turismo?), etc.
Se alguém me puder elucidar, fico muito agradecido.
No resto, parabéns pelo blog, continua como sempre interessante, o aspecto elegante e a tua prosa muito certeira e bem fundamentada, como convém para tratar destes assuntos.
Abraço
Amilcar essa é a primeira vez que estou a acessar o teu blog.
E sinceramente gostei muito. Como disse o João Peixoto tens uma prosa certeira e bem fundamentada.
Estou a escrever esse comentário para, mais uma vez, concordar com o João Peixoto. De facto, há mais doutores nas áreas sociais e humanas do que nas áreas técnicas/científicas. Eu sou desse lado e sempre que participo em encontros sobre a investigação em Cabo Verde fico muito decepcionada, porque a maioria (cerca de 80 a 85%) são das áreas sociais.
E então quando se trata de áreas ligadas ao ambiente é gritante a pouca quantidade de doutores. Na minha área (Geologia) nem falaremos. E o défice não é só de gente formada nessas áreas como também estudos feitos.
Se calhar o nosso sistema educativo não motiva os caboverdianos a seguirem essas áreas dado ao défice da componente prática. É basta vermos como os nossos estudantes reagem no primeiro ano do curso quando saem para estudar fora do país.
No entanto, a quantidade de doutores que temos ainda é pouca para o tipo de sociedade que queremos ter e desenvolver.
Caro João Peixoto,
A sua dúvida pode ser elucidada em http://www.dfqq.cv. Aí encontras os regulamentos todos.
Abraço
Muito obrigado pelo link mrvadaz,
Realmente pude confirmar que sim, há um critério que favorece determinadas áreas científicas em detrimento de outras. É mesmo o 3o critério (ou 2º, para pós-graduações) com maior peso para determinar a nota de candidatura à bolsa.
Está no Regulamento do Concurso de Bolsas, últimas 2 páginas – Prioridade do Curso. A título de curiosidade, as áreas são (de maior para menor peso):
Artes e expressões
Ciências do Mar
Ciências exactas e da Terra (Metereologia, Probabilidades e Estatística)
Ciências da Saúde
Ciências Sociais e Aplicadas (Notariado, Gestão de TIC)
Engenharias (Ambiente, Química, Informática, Transportes, Prod. Industrial)
Ciências Sociais e Aplicadas (Comunicação, Finanças, Fiscalidade)
Engenharias (Cartografia e Topografia)
Outros
Em geral parece-me bem a lista, nada de muito extraordinário. Resta saber até que ponto este critério tem realmente peso na quantidade de doutores que se formam.
Esta questão da escolha das áreas de licenciatura para mim é importante porque está ligada a posterior desemprego e expectativas frustradas. Naturalmente que toda a gente tem direito em escolher a formação que bem entender, mas há que ter cuidado com o que se vende aos estudantes. Agora que há faculdades em solo pátrio, quantos cursos científicos existem face às Sociologias/Economias/Gestões?
Como muito bem aponta a Vera Alfama, outra consequência grave da falta de quadros técnicos é a falta de estudos científicos. Estudos esses que, a existir, são pagos a peso de ouro a consultores internacionais e normalmente integrados em processos de financiamento/avaliação, logo mais vulneráveis a manipulações políticas.
O engenheiro Peixe, o constatador de deformações profissionais, e a cientista muito desiludida Lafama, (a geóloga que constata défices e estuda o porquê das reacções de estudantes cabo-verdianos no 1º ano do curso em países estrangeiros) demonstram que têm um excelente perfil para conselheiros do presidente da república, do primeiro-ministro, etc. Se o Obama vos lê é capaz de vos contratar futuramente para a Direcção de Seleccionadores para a colónia de humanos que estão a construir num planeta distante da Terra.
Acho que o João Peixoto disse tudo e bem!!!
Candidate-se ao cargo!!!
rasta, obrigado pelo elogio (?) mas para lhe tirar as ilusões, basta dizer que claramente os lugares de conselheiros do presidente da república/PM/câmareiros etc e tal não estão ao alcance de quem queira debater estas questões com base em números e relatórios publicados.
Já para visionários que têm a cabeça nos planetas distantes da Terra e nos feitos do Obama (el ê k ta podê dvera né?), esses lugares estão aí à mão de semear!
Homem, candidate-se!
Lafama, achas baby?? Ui que mandona, (dá para ver o chicote)!
Peixe, o engenheiro desilusionista. Assim, em média, quantas ilusões tiras por dia?
Vc agora esteve muito bem. Ilusões cada um que tire as suas, eu não sou para aí chamado. Mil perdões pelo atrevimento, queira continuar mandando palavras ao vento…
…e Jah rules, não é?
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