Amílcar Tavares

Os 5 milhões de dólares ficam na conta do Mo Ibrahim

by Amílcar Tavares on 27/10/2009

matador

A comissão do Prémio Mo Ibrahim de Excelência em Liderança Africana, patrocinado pelo milionário empresário sudanês Mo Ibrahim, decidiu não passar o cheque. Estavam em jogo, cinco milhões de dólares em dez anos e, posteriormente, uma renda anual vitalícia de 200 mil.

Do júri fazem parte Kofi Annan, antigo Secretário-Geral das Nações Unidas e Prémio Nobel da Paz de 2001, Martti Ahtisaari, Prémio Nobel da Paz de 2008 e antigo Presidente da Finlândia, Mohamed El-Baradei, Prémio Nobel da Paz de 2005 e director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Mary Robinson, antiga Presidente da Irlanda e antiga Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Salim Ahmed Salim, antigo Secretário-Geral da Organização da Unidade Africana e antigo primeiro-ministro da Tanzânia, e Aïcha Diallo, ex-ministra da Educação da Guiné.

A surpreendente novidade foi divulgada num seco comunicado de imprensa, mas Mo Ibrahim acabou por dizer que deixa o facto em aberto para que as pessoas possam tirar as suas próprias conclusões.

O ex-presidente de Moçambique Joaquim Chissano foi o primeiro contemplado, enquanto o segundo foi o ex-presidente do Botsuana, Festus Mogae e na linha de sucessão deste, estavam três pesos-pesados no continente: os ex-presidentes da África do Sul, Thabo Mbeki, da Nigéria, Olusegun Obasanjo, e do Gana, John Kufuor.

Thabo Mbeki foi negligente a liderar o dossier sobre o Zimbabué ao proteger Robert Mugabe e foi irresponsável na sua posição sobre o VIH/SIDA. Olusegun Obasanjo apresentou tiques de autocrata e não demonstrou excelência na liderança do seu país. John Kufuor, apesar dos sinais de uma economia em crescimento, muitos ganeses não viram os benefícios e falhou no combate à corrupção.

O Prémio Mo Ibrahim pretende distinguir a boa governação de presidentes da República ou chefes de Governo africanos, democraticamente eleitos e que tivessem abandonado o cargo dentro do tempo-limite prescrito pela Constituição do país respectivo e pelo menos 3 anos antes da atribuição do galardão internacional em causa.

Ora, as lideranças nos países que melhor performance apresentam no Índice Ibrahim de Governação Africana — Maurícia, Cabo Verde e Seicheles — não cumprem o último requesito. Na Maurícia, o presidente Anerood Jugnauth ocupa o cargo desde 2003 e o primeiro-ministro Navin Ramgoolam entrou em 2005. Os homólogos cabo-verdianos estão cumprindo os respectivos segundos mandatos e nas Seicheles, o Chefe de Estado e de Governo, James Alix Michel, foi re-eleito em 2004.

Conclusão própria: Mo Ibrahim e a sua comissão aguardaram o momento certo para esta estocada. Que sirva de lição e seja objecto de reflexão.

Créditos da foto: Twaize. Usada sob licença Creative Commons 3.0.

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1 Ariane Morais-Abreu 27/10/2009 at 18:25

Acham que tais prémios valem e significam realmente qualquer coisa para os nossos paises?!! Mais uma fantochada… com muito dinheiro para desbanjar.

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2 Amílcar Tavares 27/10/2009 at 20:48

Numa primeira análise pode-se dizer isso. Mas o Mo Ibrahim diz no seu interessantíssimo artigo “Mandelas, not Mobutus” publicado no The Guardian:

I have faced some criticism, with people suggesting I am trying to bribe leaders to do their jobs, and therefore patronising them, to others asking me why I have not spent the money on bed nets and boreholes. The critics are failing to take into account how central governance and leadership are for Africa’s development. In addition, western leaders have a future after their time in office – they can sit on the boards of companies, take up speaking engagements or write memoirs. But what do decent, hard-working African leaders have to look forward to once they retire? This is part of the importance of our prize. It provides African leaders with the option of continuing a life in public service.

Não deixa de ser uma boa ideia. Não acha?

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3 Ariane Morais-Abreu 29/10/2009 at 16:04

Nao acho porque nao cria concretamente alternativas, somente a reproduçao de um sistema alienado de distinçao, premios, gratificaçoes que as acçoes muito raramente justificam. Fora o Mandela, que ja esta velhinho , onde andam a passear estes leaders africanos de peso e relevo? Nao vejo nenhum (nao formatado pelos interessos extra africanos) que desperta a atençao e confiança. O website da fundaçao M. I. nao revela nenhuma mais- valia africana apesar da ambiçao e grana do seu fundador.

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4 AmilcarTavares 30/10/2009 at 14:56

Acho que Mo Ibrahim preocupa-se com essa questão. Ele quer, precisamente, vê-los a fazer, por exemplo, o mesmo que António Mascarenhas Monteiro fez no African President-in-Residence na Universidade de Boston ao colaborar com o African Presidential Archives and Research Center.

Sem perpetuação no poder e muito menos, contas milionárias na Suíça ou palácios na Rue de la Baume.

O único problema que vejo no prémio é a falta de candidatos. Podia ser uma anedota mas não é.

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