A comissão do Prémio Mo Ibrahim de Excelência em Liderança Africana, patrocinado pelo milionário empresário sudanês Mo Ibrahim, decidiu não passar o cheque. Estavam em jogo, cinco milhões de dólares em dez anos e, posteriormente, uma renda anual vitalícia de 200 mil.
Do júri fazem parte Kofi Annan, antigo Secretário-Geral das Nações Unidas e Prémio Nobel da Paz de 2001, Martti Ahtisaari, Prémio Nobel da Paz de 2008 e antigo Presidente da Finlândia, Mohamed El-Baradei, Prémio Nobel da Paz de 2005 e director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Mary Robinson, antiga Presidente da Irlanda e antiga Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Salim Ahmed Salim, antigo Secretário-Geral da Organização da Unidade Africana e antigo primeiro-ministro da Tanzânia, e Aïcha Diallo, ex-ministra da Educação da Guiné.
A surpreendente novidade foi divulgada num seco comunicado de imprensa, mas Mo Ibrahim acabou por dizer que deixa o facto em aberto para que as pessoas possam tirar as suas próprias conclusões.
O ex-presidente de Moçambique Joaquim Chissano foi o primeiro contemplado, enquanto o segundo foi o ex-presidente do Botsuana, Festus Mogae e na linha de sucessão deste, estavam três pesos-pesados no continente: os ex-presidentes da África do Sul, Thabo Mbeki, da Nigéria, Olusegun Obasanjo, e do Gana, John Kufuor.
Thabo Mbeki foi negligente a liderar o dossier sobre o Zimbabué ao proteger Robert Mugabe e foi irresponsável na sua posição sobre o VIH/SIDA. Olusegun Obasanjo apresentou tiques de autocrata e não demonstrou excelência na liderança do seu país. John Kufuor, apesar dos sinais de uma economia em crescimento, muitos ganeses não viram os benefícios e falhou no combate à corrupção.
O Prémio Mo Ibrahim pretende distinguir a boa governação de presidentes da República ou chefes de Governo africanos, democraticamente eleitos e que tivessem abandonado o cargo dentro do tempo-limite prescrito pela Constituição do país respectivo e pelo menos 3 anos antes da atribuição do galardão internacional em causa.
Ora, as lideranças nos países que melhor performance apresentam no Índice Ibrahim de Governação Africana — Maurícia, Cabo Verde e Seicheles — não cumprem o último requesito. Na Maurícia, o presidente Anerood Jugnauth ocupa o cargo desde 2003 e o primeiro-ministro Navin Ramgoolam entrou em 2005. Os homólogos cabo-verdianos estão cumprindo os respectivos segundos mandatos e nas Seicheles, o Chefe de Estado e de Governo, James Alix Michel, foi re-eleito em 2004.
Conclusão própria: Mo Ibrahim e a sua comissão aguardaram o momento certo para esta estocada. Que sirva de lição e seja objecto de reflexão.
Créditos da foto: Twaize. Usada sob licença Creative Commons 3.0.
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Acham que tais prémios valem e significam realmente qualquer coisa para os nossos paises?!! Mais uma fantochada… com muito dinheiro para desbanjar.
Numa primeira análise pode-se dizer isso. Mas o Mo Ibrahim diz no seu interessantíssimo artigo “Mandelas, not Mobutus” publicado no The Guardian:
Não deixa de ser uma boa ideia. Não acha?
Nao acho porque nao cria concretamente alternativas, somente a reproduçao de um sistema alienado de distinçao, premios, gratificaçoes que as acçoes muito raramente justificam. Fora o Mandela, que ja esta velhinho , onde andam a passear estes leaders africanos de peso e relevo? Nao vejo nenhum (nao formatado pelos interessos extra africanos) que desperta a atençao e confiança. O website da fundaçao M. I. nao revela nenhuma mais- valia africana apesar da ambiçao e grana do seu fundador.
Acho que Mo Ibrahim preocupa-se com essa questão. Ele quer, precisamente, vê-los a fazer, por exemplo, o mesmo que António Mascarenhas Monteiro fez no African President-in-Residence na Universidade de Boston ao colaborar com o African Presidential Archives and Research Center.
Sem perpetuação no poder e muito menos, contas milionárias na Suíça ou palácios na Rue de la Baume.
O único problema que vejo no prémio é a falta de candidatos. Podia ser uma anedota mas não é.