Na sua globalidade, os países africanos não passam de uns pedintes. São uns mendigos que passam a maior parte do seu tempo de braço esticado ao Ocidente.
Contudo, os resultados são verdadeiramente decepcionantes, pois após vários triliões doados ou emprestados pelo diabolizado Ocidente nos últimos 50 anos, os países subdesenvolvidos continuam subdesenvolvidos, cada vez mais endividados.
O gráfico abaixo mostra quem mais dá e quem mais recebe e facilmente se pode concluir que países que mais receberam ajuda externa são os mesmos a pedir por ainda mais e, por mais incrível que se possa parecer, a sua imensa maioria da população vive na extrema pobreza, embora sejam extremamente ricos em recursos naturais.
Realmente, não deixa de ser indecoroso o recurso ao discurso da “ingerência” ou do “neocolonialismo” quando o Ocidente pede, como moeda de troca aos cheques, coisas tão simples como: democracia, limitação de mandatos, direitos humanos ou um combate em quartel contra a corrupção.
Créditos da imagem: visualeconomics
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Paulo, no mínimo a tratar coisas sérias de forma ligeira…
Ligeireza? O Edson é bem capaz de estar errado. Já agora, qual é a sua opinião sobre o assunto?
Xi Amilcar,
nao deixa de ser ligeira a forma como levantas determinadas questões. Contudo reitero que é leigera a tua abordagem. Falar da minha opinião seria gastar linhas e linhas neste comentario. Contudo gostaria de te deixar algumas ideias para reflexão: quantos desses maus gestores da ajuda pública que continuam a recebe-la em funçao de interesses geo-estrategicos e politicos? Quantos interesses estão por detrás dessas ajudas? Que tipo de ajuda está a ser dada: economica, militar, de saúde? É so reparar no mapa da ajuda e para que região ela é direccionada. Meu caro, o conceito de cooperaçao evoluiu.Uma coisa é conceder apoios e fazer cooperaçao com base em critérios claros (boa governação é um deles), outra coisa é ajudar e depois exigir, condicionar e intervir (pela força)…mas sobre isso podemos discutir depois!
Meu caro, levantei duas questões: subdesenvolvimento crónico após triliões e um esquema chantageador que admite cheques mas não tolera benchmarks. Certamente, é por isso que os países africanos estão na cauda de todos os rankings possíveis e imaginados. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é um bom exemplo: os 24 últimos da lista são todos africanos!
Portanto, lamento ver o Edson a achar que estas questões são ligeirezas, porém, aconselho uma revisão desse conceito.
Shiuuuuu! Há certas coisas que não se podem dizer, correndo-se o risco de passar por leviano. A verdade é que por enquanto que mais de dois terços da ajuda externa aos países mais pobres continuar sem chegar a quem realmente precisa – as populações – e continuar a servir para enriquecer uma certa classe política que vive sob a capa de ONG's e solidariedade, tudo isso não passa de uma grande farsa. Por alguma razão também Cabo Verde é visto, nestes circuitos, como um exemplo.
Felizmente encontraste adjectivos para qualificar isto, pois eu não encontro.
So para terminar este debate, porque afinal so repetiste os argumentos: a forma como fizeste a abordagem é ligeireza sim…"Realmente, não deixa de ser indecoroso o recurso ao discurso da “ingerência” ou do “neocolonialismo…” Mas cada um tem a abordagem que quer, não é??
Obviamente, cada um tem a sua própria abordagem mas os fins não justificam os meios. Condeno, pois, a opção por esse recurso, que diga-se de passagem, é merecedor de escárnio. Aliás, até indicia falta de habilidade para a coisa e a realidade é atroz ao fazer prova disso.
Amílcar, obrigado pelo gráfico e por me dares a conhecer o visualeconomics. Tudo o que sirva para tornar mais explícitas as tendências escondidas nos números é de reter nesta nossa era da complexidade. Mas é preciso ter cuidado com a forma como se "cozinham" os números.
O Gapminder quanto a mim fornece melhores termos de comparação: ver a evolução dos doadores – http://tinyurl.com/pmakbb – e dos receptores – http://tinyurl.com/qmccgb. De realçar o facto da ajuda externa oficial (ODA) se manter aproximadamente constante desde 1990 e o interessante pico do Iraque a partir de 2004…Dá que pensar sobre o que é considerado de ajuda externa.
Quanto ao post em si, compreendo os comentários quanto à ligeireza da abordagem mas também não se podem esperar explicações cabais de assunto tão complexo num post curto de divulgação como este que fizeste. O título é pura malandragem, diga-se de passagem. Embora concorde que o argumento do neocolonialismo está muito gasto – sem dúvida que é mais que tempo para os países receptores de ajuda assumirem as suas responsabilidades – nada neste tópico da "Aid" é preto e branco.
Infelizmente. Há demasiados graus de cinzento na bendita (?) "cooperação" como cá lhe chamamos em Portugal. Há estudos (perdoa-me não os ter agora presentes) que afirmam que o grosso da ajuda externa regressa aos países de origem, na forma de compra de bens e serviços (vulgo salário dos consultores internacionais). Trabalhei em projectos da UE e aí é claro como a água: normas rígidas para contratação de pessoal e compra de materiais (só mercado local ou UE). O que até nem será de censurar, afinal quem dá o dinheiro terá direito a estabelecer as regras.
Para explicar o atraso crónico de muitos países face ao dinheiro que lhes é "injectado", convém sobretudo olhar para o que não é considerado "Aid": as trocas comerciais no quadro da OMC, "curiosamente" muito favoráveis aos países dadores, e as relações obscuras de governos (doadores e receptores) e multinacionais que exploram os recursos naturais de que falas. As exigências de "democracia, limitação de mandatos, direitos humanos ou um combate em quartel contra a corrupção" pouco mais são do que fachadas: se o business rolar as usual, qualquer atrocidade é tolerada.
Exemplo prático: os teus vizinhos da Guiné-Bissau. Vergaram-se às exigências de FMI/BM, os quais praticamente sozinhos conseguiram acabar com a segurança alimentar dos guineenses com a política criminosa de plantar cajú a torto a direito. Não contentes, uns anos mais tarde tiveram que engolir de novo um Presidente que tinha sido expulso com grande apoio popular, a bem da "democracia". O resto da história está aí à vista.
Resumindo: os governantes de mão estendida têm culpas no cartório? Têm sim. Falta de ideias, falta de escrúpulos, falta de educação sobretudo. Mas para haver corrompido tem que haver corruptor, isso é que não podes esquecer Amílcar.
Um abraço e obrigado por chegares até ao fim desta longa "posta".
Caro João, obrigado pela bela “posta” e figura-se como o melhor comentário recebido até hoje cá no blog: construtivo, informativo e esclarecedor.
Sobre as informações económicas, também prefiro a Gapminder. Aliás, há uns tempos apresentei um fenomenal vídeo do seu fundador Hans Rosling sobre a farsa que é o chamado Terceiro Mundo.
Concordo em quase tudo que disse e é por isso que, em minha opinião, a fórmula actual do “aid” está gasta. Prefiro o “trade”.
O exemplo da caótica Somália que contratou a PricewaterhouseCoopers, sugestão da ONU, para monitorar o ajuda ao desenvolvimento e garantir que ela chegue ao seu propósito. Isto é sintomático de que há formas simples e criativas de evitar o caso serra-leonês, por exemplo, que era conhecido como o “balde furado”. Tem muita razão quando diz que “para haver corrompido tem que haver corruptor”, mas quando o corrompido está àvido, à procura de um corruptor, nada feito.
É curioso como o mesmo argumento também se aplica a Portugal: é dos países mais pobres da UE, e provavelmente dos que mais dinheiro recebeu (per capita) em "ajudas"…
Usei aspas na palavra "ajudas", porque neste mundo ninguém dá nada a ninguém sem contrapartidas… Fazendo uma análise quiçá também leviana, Portugal (cuja balança comercial é cronicamente deficitária) adopta com um optimismo imbecil tudo aquilo que a UE lhe “oferece”, esquecendo-se do seguinte: Dão-nos dinheiro para auto-estradas porque nós compramos pelo menos o dobro desse valor em BMW's e Mercedes, comprados para serem utilizados… nas auto-estradas que nos “ofereceram”, claro está!
De facto, Portugal perde óptimas oportunidades de se qualificar e transformar-se com os dinheiros da UE. Não houve um "business plan" e o dinheiro não atingiu os objectivos. Por isso, acredita, os europeus um dia vão querer saber para onde foi.
Caro Amilcar, onde queria chegar é que os Europeus sabem perfeitamente para onde o dinheiro foi: de volta para os seus cofres e com acréscimos.
Senão vejamos um exemplo: A PAC (que representa a maior fatia do orçamento da UE) dura à tantos anos porque:
a) Os países ricos são nossos amigos e querem ajudar os mais pobres a competirem nos seus próprios mercados?
b) Quando um agricultor português recebe um subsídio da UE, esse subsídio volta (com acréscimos, dado que nada é financiado a 100%) aos países dadores, através da compra de maquinaria agrícola, sementes, pesticidas, adubos, etc?
Enfim, basta analisar a balança comercial portuguesa desde a entrada na UE e "fazer as contas". Provavelmente o mito que os Alemães têm de que vivemos à custa deles se invertesse.
A lógica da "ajuda externa" é como receber uma impressora “de graça”: normalmente ficamos gratos por recebê-la e nem pensamos duas vezes no balúrdio que vamos gastar em tinteiros que só podem ser comprados a quem nos ofereceu a dita cuja.
Parece-me óbvio que qualquer país, quanto mais ajuda externa recebe, mais dependente do exterior fica, porque normalmente as ajudas implicam contrapartidas de exclusividade comercial como importar algo a alto preço e/ou exportar algo a baixo preço do/para o país dador.
Do ponto de vista dos países “dadores”, interessa-lhes ter sob controlo económico e político determinadas economias, especialmente aquelas que lhes fornecem matérias-primas a baixo custo. Daí que muitos vejam o e BM/FMI como o “braço armado” de certos interesses… E o que acontece quando um país se recusa a ser controlado economicamente e fecha a sua economia ao exterior? (ex: Iraque, Irão, Cuba…) Simples: Passa-se para a solução militar!
A ajuda externa tem o lado negativo e nota-se claramente nos últimos 24 da lista do IDH: apropriação indevida e o crescimento da atitude de dependência. Obviamente, dá nisso quando não se investe aquilo que se recebe. Da próxima, quando receberes uma impressora, usa-a bem, cuida bem dela e… cobra aos teus vizinhos e amigos pelas impressões!
Caro Amilcar, não resisto a fazer mais um longo comentário, dado que infelizmente não tenho o dom de ser simultaneamente sucinto e claro nas minhas opiniões.
Na minha opinião, a ajuda externa tem sempre efeitos negativos, na medida em que nos torna dependentes de futuras ajudas do exterior. Um exemplo extremo:
Quando um país rico envia cereais (normalmente os seus excedentes de produção) para um país pobre, aparentemente está a ter um gesto de caridade, com o objectivo de resolver os problemas de fome nesse país (isto partindo do princípio que os cereais chegam gratuitamente a quem os precisa, o que também sabemos que não é totalmente verdade).
(continua no post seguinte)
No entanto, há sempre o outro lado da moeda: ao serem distribuídos cereais gratuitamente, pura em simplesmente destrói-se o incentivo para produzir localmente (quem é que no seu perfeito juízo quer competir na produção de algo que vem de fora a título gratuito?) agravando-se assim o défice de produção e a dependência externa de cereais nos anos seguintes, ao ponto de, a certa altura, haver risco real de tumultos e revoluções caso não sejam enviados os cereais a título gratuito, dado que entretanto o tecido empresarial que permitiria a produção e distribuição de cereais localmente já nem existir.
Nos dias que correm é assim que se controla um país subdesenvolvido: com uma capa de politicamente correcto chamada "ajuda externa" que não passa de uma forma subtil de colonialismo. Quanto maior o grau de ajuda externa, maior é o grau de dependência económica e subdesenvolvimento de um país (como é o caso de Portugal relativamente à UE).
Só há aqui um pequeno senão: enquanto que no caso dos países africanos, a situação de subdesenvolvimento é extremamente rentável para os países ricos, na medida em que em troca recebem matérias-primas a baixo custo, no caso de Portugal, dado não existirem recursos naturais relevantes, a situação de défice comercial crónico levará à falência do Estado.
segui atentamente os comentarios postados e todos têm uma ponta de razão.Gostei particularmente dos posts do João Coelho, acho que colocou o dedo na "ferida", as chamadas ajudas aos países mais pobres nunca são destituidos de efeitos perversos e podemos até questionar até que ponto esses efeitos são empolados pelos próprios estados.
entendo a perspectiva do Amilcar em culpar os paises africanos pois até certo ponto a culpa é deles por não criarem redes eficientes e eficazes para distribuição das ajudas.a corrupção é o maior problema, é triste ver que os chefes de estado de alguns dos paises mais pobres do mundo, são das pessoas mais ricas do mundo.
o carenciado que sabe que sera sempre amparado pela esmola dos outros não tem incentivo em sair desse círculo vicioso.
ingénuo aquele que pensa que as ditas ajudas vêm sem "hidden agenda", neste nosso mundo cada vez mais globalizado estamos mais dependentes uns dos outros e qual seria o futuro de Africa se a torneira secar?Temos de assumir as nossas responsabilidades,cabe aos africanos encontrar saídas para esta situação.não podemos pôr eternamente as culpas nos "colonizadores"
Na linha daquilo que diz, o Zimbabué é um caso de estudo. Tem um calote que já chega aos US$ 140 milhões e acaba de receber mais 500 milhões. Por enquanto, agenda exposta aponta para questões de direitos humanos, as questões do Estado de Direito e as questões da boa governação.
Da agenda encoberta, não tenho informações.
A velha expressão "ao gosto do freguês" nunca fez tanto sentido, caro Paulo. Aliás, o IDH, Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, é terminante. Não deixa campo a objecções sobre o tema em questão: os 24 últimos da lista são todos africanos!
Já agora, qual é a sua opinião sobre o assunto?
A velha expressão "ao gosto do freguês" nunca fez tanto sentido, caro Paulo. Aliás, o IDH, Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, é terminante. Não deixa campo a objecções sobre o tema em questão: os 24 últimos da lista são todos africanos!
Já agora, qual é a sua opinião sobre o assunto?