Luís Batalha, no âmbito do estudo “Comunidade(s) cabo-verdiana(s): As múltiplas faces da imigração cabo-verdiana em Potugal” tem um artigo muito interessante, Cabo-verdianos em Portugal: “Comunidade” e Identidade, onde ele divide-os em dois grupos, que não se tocam.
Há a “elite” colonial cabo-verdiana:
Os cabo-verdianos da “elite” colonial estão integrados nos estratos médios e superiores da sociedade portuguesa, sendo, numa boa parte dos casos, invisíveis aos olhos da restante sociedade portuguesa. Nasceram e foram criados durante as últimas décadas do colonialismo – os mais velhos ainda vivos nasceram na década de 1920 – e mantiveram a cidadania portuguesa após a independência de Cabo Verde, em 1975. A maioria manteve, ao lado da nacionalidade, um sentido de “portugalidade” adquirido pela educação escolar e práticas de enculturação familiares vigentes no seu tempo de infância e juventude. A lógica identitária do Estado Novo permitiu-lhes incorporar a identidade cabo-verdiana como um subtipo no mosaico das identidades coloniais (e metropolitanas) daquilo que se compreendia como o império “do Minho a Timor”.
E por outro, há os migrantes trabalhadores cabo-verdianos:
A sua migração para a “metrópole” iniciou-se nos anos 1960 e continua ainda hoje, embora o ritmo tenha abrandado muito nas décadas de 1990-2000. Muitos eram analfabetos ou apenas tinham a escolaridade básica, frequentemente incompleta (equivalente aos actuais 2.° ou 3.° anos). Os maiores picos da migração cabo-verdiana para Portugal deram-se nas décadas de 1970-80. No início eram sobretudo homens oriundos de comunidades rurais, por vezes com uma permanência intermédia na cidade local mais próxima, até adquirirem o dinheiro e conhecimento suficientes para fazer o percurso migratório com sucesso. A maior parte desses homens veio da ilha de Santiago.
A aceitação:
O facto de serem “pretos” e de falarem português com dificuldade facilmente reafirmou o estereótipo que muitos portugueses da “metrópole” tinham do “preto africano”: alguém que vivia em África, “incivilizado” e “sem religião” e que, por isso, era considerado inferior e até mesmo gozado. (…) O clima de segregação fazia com que muitos cabo-verdianos convivessem sobretudo entre si e pouco com a população “branca”. Viviam em “barracas”, e à margem, por vezes em terrenos baldios.
Também há um fenómeno novo:
Em Portugal, a comunicação social, enquanto produtora de identidade, ajudou a criar uma imagem negativa dos descendentes de famílias cabo-verdianas imigrantes. Enquanto os pais eram retratados como “pobres mas honestos”, “bons trabalhadores” e “trabalhadores explorados”, os filhos são retratados como “vítimas do insucesso escolar” e como “delinquentes juvenis”. Por sua vez, os próprios jovens de origem familiar cabo-verdiana fazem uso dessas representações sociais veiculadas nos media para construírem identidades opostas à corrente dominante da sociedade portuguesa “branca”, marcadas por categorias como “desintegração” e “marginalidade”, que eles próprios reinterpretam. A sociedade “branca” dos “tugas” é, para eles, a principal culpada da situação de “marginalidade” em que vivem. A maioria destes jovens dá pouco valor à educação escolar como veículo de ascensão social e considera que estudar não vale a pena, porque os melhores empregos serão sempre para os portugueses brancos (“tugas”).
E os “desafios” não param:
A competição de imigrantes de leste e brasileiros, sobretudo, representa uma ameaça ao enclave laboral das mulheres cabo-verdianas. Muitas famílias portuguesas preferem agora uma “empregada de leste” ou uma “brasileira” a uma “cabo-verdiana”. No fundo, as cabo-verdianas são objecto do racismo não assumido da “classe média” portuguesa e preteridas em favor de “ucranianas” e “brasileiras”, vistas como “racialmente” e “culturalmente” mais próximas. Toda esta concorrência contribui para manter baixos os salários no sector das limpezas, o que torna a vida das famílias cabo-verdianas (e das mulheres em particular) cada vez mais difícil.
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Excelente post Mika, de uma veracidade exemplar e sem meias palavras. Que se façam mais trabalhos desses. e Obrigado abo pa bo ter el publicod tb
iiii Amilcar, vais-me desculpar!
Um tabu que precisa ser desmascarado. A questão racial em Portugal!
Eu nunca fui vítima no EXACTO sentido da palavra porque sempre me superiorizei a certos comportamentos e comentários.
Aprendi com um ex-patrão aí mesmo em Lx, que dizia (Era do Porto, portanto … desculpas antecipadas!): – Não ligues a toda a M**DA que vem no teu sentido, porque da mesma forma que vem, volta outra vez para o mesmo sítio!
Mas a "coisa" parece-me que dá sinais de evolução positiva, portanto vamos dar o benefício da dúvida!
Estivesse o meu KOTA vivo ainda para lhe perguntar como é que era quando lá esteve (entre 77 e 81).
Eu já digo: Gosto imenso do sítio e pelas amizades e pelo tempo que lá passei, foi realmente um sítio "onde já fui feliz", como dizia o outro.
Desejo que futuramente a minha Filha, diga-me simplesmente: – Nada de especial pai, sinceramente não parece aquele país onde o vovó esteve!
Val
Há um trabalho publicado em 2006 com a coordenação do Prof. Mário Lages "Os imigrantes e a população poruguesa. Imagens recíprocas" que faz também um retrato muito interessante de Portugal e dos portugueses. Conclui que há manifestações de racismo em 1/4 da pop. portuguesa que gosta de pensar em Portugal como um país de brancos e para brancos!