Amílcar Tavares

O cidadão e o seu voto

by Amílcar Tavares on 15/06/2009

Nunca se viu ninguém auto-recriminar-se porque falhou no cumprimento de um dos seus deveres enquanto cidadão. Em contraponto, a indignação é bem frequente quando um dos direitos, consagrados pela Constituição, é violado. É por esta natural incoerência que o exercício do voto devia ser obrigatório.

Votar é mais do que um simples direito. É um dever, pois com ele o cidadão pode mudar o rumo do país e é a derradeira oportunidade, antes de delegar poderes aos deputados, de se fazer ouvir e fazer valer a sua opinião. Por isso, não deve abrir mão deste importante instrumento e tem que usá-lo sabiamente.

Além disso, o voto obrigatório enriquece a democracia. Obriga os actores a elevarem tanto o nível do debate como a qualidade das propostas. A participação de todos, claramente exige maior amplitude no discurso e um maior cuidado na escolha dos candidatos que se submete a apreciação, pois obriga os partidos a procurarem a excelência e a competência.

Embora a ideia de que se está a forçar o voto pode estar bem presente, é nesse capítulo que entra a importância do voto em branco. O facto de não mexer no boletim de voto diz muito. Manda uma clara advertência à classe política porque é a voz do descontentamento e é bem diferente da abstenção que pode ser confundida com o laxismo ou com a ignorância do cidadão.

Assim, há mais a ganhar do que a perder com a opção pela obrigatoriedade do voto. O acto de votar é coisa séria e sagrada e o futuro do um país depende muito disso. Com tão poucas oportunidades de dizer o que pensa, nenhum cidadão pode, e nem deve, ficar de fora.

Este post vem no âmbito do tema escolhido para o BlogJoint. Leia outras abordagens sobre o tema nos outros blogs: Bianda, Blog di Nhu Naxu, Café Margoso, Emílio Rodrigues, Geração 20 J. 73, Ku Frontalidade, Nos Blogue, O Jornal da Hiena, Passageiro em Trânsito, Pedra Bika, Teatrakacia, Tempo de Lobos.

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1 João Branco 15/06/2009 at 13:39

Voto obrigatório e voto em branco. Muito bem. Até parece que combinamos! Abraço, JB

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2 AmilcarTavares 15/06/2009 at 16:29

Exactamente! Ficar de fora amuado ou ir à praia em vez de ir para a fila para votar é que é muito mau.

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3 Sara 15/06/2009 at 15:04

Se os conteúdos programáticos abordassem aspectos relevantes da História, estas gerações mais novas perceberiam a importância do voto.
Se a memória colectiva não fosse fraca e se não se voltasse tanto para aspectos bem menos edificantes, os mais velhos não esqueceriam a oportunidade que têm de mudar rumos, construir novos caminhos.
Sim ao voto obrigatório.
O voto em branco é sem dúvida uma excelente oportunidade de manifestar a nossa indignação e a nossa vontade de mudarmos tudo, até as moscas!

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4 AmilcarTavares 15/06/2009 at 16:28

A nossa classe política devia pegar mais vezes nos manuais porque perderam grandes oportunidades de pôr os cabo-verdianos a exercitarem a democracia.

Não referendaram: a Constituição, a Bandeira, o Hino, a Língua Cabo-verdiana… e por aí fora. Assim torna-se tudo mais difícil entrar no espírito da coisa.

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5 Rony Moreira 15/06/2009 at 16:13

Mas, Amílcar! Perante os abusos e as formas com o poder e controlado. Acho que temo o direito a desobediência, o não ir votar mesmo. A democracia não está bem, existe controlo por parte dos detentores do poder, o povo só é levado em conta no dia D da votação depois poucos dão por ele. Por isto eu sou a favor de não votar simplesmente.

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6 Amílcar Tavares 15/06/2009 at 16:41

Não acho que haja em Cabo Verde motivos para a tal desobidiência que dizes. Por isso, prefiro ir e votar em branco. Expressa muito melhor o meu descontentamento.

Reforçando o que disseste, não existe a cultura do exercício da democracia. O cabo-verdiano nunca aprendeu e nunca lhe foi ensinado os seus princípios. No início dos anos '90 só lhe foi dito: agora já podem votar. Tout court!

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7 hiena 15/06/2009 at 17:06

… penso que devia-se dar "mais valor " à abstenção( por convicção), que é uma forma de penalizar o partidos/candidatos , estou de acordo com o Rony que frisou isso mesmo, o direito à desobediência (caso se justifique)…

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8 AmilcarTavares 15/06/2009 at 17:49

Descarrega esse descontentamento e mande às favas o sistema no boletim! Porque não?

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9 Fonseca 15/06/2009 at 17:31

Amilcar, gostaria que comentasses estes cenários:
1) 40% de votantes… 5% de brancos…
2) 80% de votantes (ou muito perto dos cem, com o voto obrigatório)… 65% de brancos…
E a mesma insatisfação de sempre em relação ao sistema… ou aos 'políticos da praça'…

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10 AmilcarTavares 15/06/2009 at 17:47

Caro Fonseca, posso responder à sua pergunta com outra pergunta?

Como podemos avaliar, dentro da abstenção, os abstencionistas militantes daqueles que foram à praia e não estavam para se chatear?

Acaba-se por diluir o protesto dentro do laxismo. Não concorda?

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11 Amilcar Monteiro 15/06/2009 at 17:46

Caro Amilcar, já meditei sobre isso de votar em branco. Funciona mt bem em democracias estáveis como na europa. Mas no caso de Cabo Verde ainda não estou certo disso. Na vespera das eleições sempre fico nessa ubiquidade. Voto em branco, dou o meu voto pro PAICV ou transfiro a soberania que me cabe ao MPD?

Fico com a dúvida. Se o meu voto conta como uma celula num todo, como garantir que é um voto válido e não apenas mais um a engrossar a transferência de soberania?

O voto obrigatório só é necessário se o povo é alienado e não entende o sentido cívico, mas aí podemos começar do be-a-ba de democracia e cidadania e aí quem sabe os políticos passem a ter que encarrar grupos de cidadãos revoltados pedindo contas. Cadê os resultados que prometeu?

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12 AmilcarTavares 15/06/2009 at 17:59

Precisamente, Xará! Temos uma democracia de péssima qualidade, perdemos óptimas oportunidades de envolver todos em referendos e os cabo-verdianos acabaram limitados à chamada de 5 em 5 anos, por três vezes, e mais nada. É muito pouco.

Talvez obrigado a ir às urnas, a cobrança dos resultados seria muito maior… Penso eu.

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13 César Schofield 16/06/2009 at 09:35

É esta cultura de resultados que é preciso atingir. Mas resultados não os vamos cobrar nas eleições. Se é cultura, tem que ser uma coisa permanente. Se habituarmos os políticos a críticas constantes, durante o exercício do mandato, nas eleições, acho eu, á estarão mais "espertos", como dizem os brasileiros. Penso que, por exemplo, esta cultura dos blogs está a sacudir um pouco a poeira, embora tenha impacto reduzido porque aí falta uma outra cultura: do acesso generalizado à informação.

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14 AmilcarTavares 18/06/2009 at 23:26

Só complementando o que disseste. A participação cívica e o engajamento no associativismo também ajudariam bastante na formação dessa massa crítica, com poder de os "manter na linha".

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15 Emílio 15/06/2009 at 19:19

Inteiramente de acordo contigo e com o João Branco, Voto obrigatório e Votar em Branco para manifestar discordância.

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16 Edy 15/06/2009 at 19:36

Pois Mica,só tem direito a pedir contas quem cumpriu o seu dever de votar…é curioso que se exige DEVERES aos POLÍTICOS e apenas DIREITOS (e muita tolerância) aos ELEITORES…permita-me responder a pergunta do Tchá: a diferença entre os dois cenários é que,no 1º caso,nunca poderemos saber se a abstenção foi alta por protesto ou porque,em virtude duma preguiçite aguda,eu não fui porque estava convencido que o meu vizinho ia e,este,acabou também por não ir e o vizinho dele,e o vizinho deste…no 2º caso é claramente um voto de protesto,um "não estou satisfeito com as propostas em eleição e com a vossa prestação passada;portanto,mudem de rumo".

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17 hiena 15/06/2009 at 20:24

não concordo com a obrigação de votar em branco para discordar…pois a livre escolha deixava de ter sentido , penso que a melhor "equação" é ser mos livres de escolher aquilo que queremos , mas também de não escolher nada e sermos activos e participativos se quizermos.Quando penso em abstênçao ,penso numa escolha, a de não votar ,caso isso se justifique, não querendo dizer que o sujeito (cidadão Aou B) que decidiu em abster de determinda votação(eleição) serà um marginal à politica… é mais uma opção,pois formos obrigados a votar(em branco ou não) a democracia perde a sua essência. acredito que haja uma abstênção consciente (e porque não, participativa).

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18 AmilcarTavares 18/06/2009 at 23:23

Por exemplo, todos pagamos impostos, obrigatoriamente, não é verdade? Por isso, acho errada essa sensação de forçar o cidadão a fazer algo contra a sua vontade.

Isto é, temos todos que dar alguma coisa em prol de algo maior.

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19 Amilcar Aristides 16/06/2009 at 17:36

percebo a tua preocupação com o laxismo mas preocupa-me mais ainda com o voto inconsequente. Aquele que vota por obrigação ou que veste a camisola partidária, não está nem aí para o futuro comum. Vejo nisso o grande perigo do nivelamento do sentido de voto para baixo. Ou voltado para interesses bem especificos e não propriamente para o bem comum.
Mesmo nas democracias onde a prática do exercício do voto é obrigatório, o debate para a evolução da democracia é constante. Ninguém pode ser obrigado a nada, mas devemos estar conscientes dos nossos deveres.

Voto obrigatório lembra-me aquelas afirmações: "kes algen la so ku pô"

nu podi e evolui, pratica mas referendo moda bu sta fala i organiza sociedadi sivil mutu antis di ileison pa kumesa ta fazi lobbi i presson na partidus i sis guentis.

abrx

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20 MeuVotoConta 29/11/2009 at 14:40

O fato de podermos VOTAR é um presente que nossos antepasados nos deixaram e que nos devemos continuar a exercer.

Para conhecer o valor que o VOTO tem, imagine por um instante, que você fosse proibido de Votar.

MeuVotoConta

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